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Matheus Freire e Thereza Correa*

Nascido em 5 de agosto de 1881, Paulo Barreto, popularmente conhecido pelo pseudônimo literário “João do Rio”, foi um grande jornalista, cronista, que aos 29 anos ocupou uma cadeira na Academia Brasileira de Letras, e é considerado o primeiro escritor moderno da literatura brasileira. 

Iniciou sua carreira aos 18 anos, no diário Cidade do Rio e usava outros pseudônimos como “Godofredo de Alencar”, “Caran d’Ache”, “José Antônio José”, “Jóe”, entre outros… Em 1903, aos 22 anos, passou a escrever para o jornal Gazeta de Notícias, quando começou a usar o pseudônimo “João do Rio” para assinar suas reportagens, e desde então passou assim a ser conhecido. O Gazeta de Notícias foi um meio de comunicação fundamental para a agencia do processo de modernização que ocorria no Rio de Janeiro, então capital da república, promovido por Pereira Passos. Segundo a antropóloga Julia O’donnel1, a produção de João do Rio é fundamental para compreender as transformações urbanas no Rio de Janeiro durante o período; desse modo, compreendendo também as implicações sociais, políticas e culturais dessas transformações. 

A produção literária de João do Rio é marcada pela sua relação com a cidade, captando as mudanças físicas e sociais. As crônicas compõem a maior parte de seus escritos, mas ele também produziu peças teatrais, romances, traduções, e até mesmo “criou” um novo gênero literário, a crônica-reportagem. Algumas de suas crônicas publicadas no Gazeta de Notícias foram reunidas e publicadas em livros. Um dos seus títulos mais conhecidos, “A Alma Encantadora das Ruas”, é considerado um grande clássico da literatura brasileira. A obra acompanha as transformações urbanas relacionando-as com representações culturais. Com seu estilo e método literário único, ainda que tenha se inspirado em recursos já comuns fora do país, João do Rio conseguia colocar em sua escrita a autenticidade carioca. Ao falar das ruas do Rio de Janeiro, sua narrativa expõe as incoerências entre a cidade da Belle Époque e a real cidade do Rio de Janeiro, e revela as estruturas e relações sociais que foram geradas e/ou modificadas com a construção da Belle Époque brasileira. 

Uma das crônicas presentes em “A alma encantadora das ruas” retrata a construção da sociabilidade e das relações, culturais e políticas, como o historiador Cezar Honorato2 apresenta no conceito de Comunidade Portuária.
A Primeira República é o período histórico que abrange o fim da monarquia, em 1889, até estabelecimento do auto denominado Estado Novo. A memória construída em torno do primeiro capítulo da história republicana do Brasil tem como destaque a instabilidade política e econômica, a redução da atuação do Estado à um caos generalizado, corrupto e ineficiente. A narrativa acerca da primeira República foi em grande parte construída pelos órgãos do Estado Novo, com o intuito de valorizar o presente ao desmerecer e, de certa forma, superar o passado. Entretanto, a Primeira República foi um período de intensa participação popular no que diz respeito à construção da cidade (construção em todos os aspectos: cultural, econômico, social, político), principalmente na capital, que era muito mais que a Belle Époque.

João do Rio3, em “Os trabalhadores de estiva”, relata em primeira pessoa, sobre o cotidiano, os trabalhadores, a paisagem e personagens que ululavam o porto carioca à época. Nesse relato vívido, os trabalhadores são testemunhas e provas do desgaste corporal imposto pelo ofício portuário; é possível perceber também indícios de uma organização classista por parte dos estivadores em defesa dos seus interesses. 

Como mencionado acima, o Rio de Janeiro passou por enormes obras na zona portuária da cidade e João do Rio registrou como a modernização arquitetônica e tecnológica coexistiam com as camadas mais pobres e trabalhadoras da população. Na crônica podemos ler como se iniciava o dia dos trabalhadores de estiva, 

Às 5 da manhã ouvia-se um grito de máquina rasgando o ar. Já o cais, na claridade pálida da madrugada, regurgitava num vai-e-vem de carregadores, catraieiros, homens de bote e vagabundos maldormidos à beira dos quiosques. Abriam-se devagar os botequins ainda com os bicos de gás acesos; no interior os caixeiros, preguiçosos, erguiam os braços com bocejos largos. Das ruas que vazavam na calçada rebentada do cais, afluía gente, sem cessar, gente que surgia do nevoeiro, com as mãos nos bolsos, tremendo, gente que se metia pelas bodegas e parava à beira do quiosque numa grande azáfama. Para o cais da alfândega ao lado, um grupo de ociosos olhava através das frinchas de um tapume, rindo a perder; um carregador, encostado aos umbrais de uma porta, lia de óculos, o jornal, e todos gritavam, falavam, riam, agitavam-se  na frialdade daquele acordar, enquanto dos botes policrômicos homens de camisa de meia ofereciam, aos berros, um passeiozinho pela baía. Na curva do horizonte o sol de maio punha manchas sangrentas e a luz da manhã abria como desabrocha um lírio no céu pálido.4

Pelo relato do cronista, podemos perceber que a rotina de trabalho era árdua, às 5 da manhã, dezenas de pessoas se aglomeravam à procura de trabalho. A sazonalidade do trabalho portuário aliado a crise que o Rio de Janeiro passava, colocava os trabalhadores numa situação em que retornar para casa não era viável, e devido ao fato de muitos não terem dinheiro suficiente para moradia, encontravam na rua o seu alento.

Muitas vezes ter ou não onde dormir dependia do sujeito ter sido escolhido pelo contratador. Se tinha trabalho, poderia pagar uma hospedaria no fim do dia, caso contrário enfrentava-se a noite num banco de praça ou em alguma embarcação do cais. Essa última opção podia até ser mais vantajosa, pois assim o operário já acordaria no local de trabalho e bem cedo se lançaria de novo a uma nova batalha na “parede”.5

Como exemplificado acima, a natureza irregular do trabalho no porto colocava os estivadores em situações fragilizadas durante a madrugada; esse fator aliado a visão elitista e racista das classes dominantes resultava na perseguição e opressão desses trabalhadores pelo instrumento de repressão do Estado: a polícia. Isso já ocorria em 18226, no Império Brasileiro, quando José Bonifácio restringe a circulação de marujos na cidade, preocupado com a ordem e tranquilidade públicas. 

Segundo Erika Bastos7, os trabalhadores do porto poderiam ser presos sem pretextos, simplesmente por estarem caminhando, dormindo na rua ou praças. Bastos salienta que, muitas vezes, essas condutas eram resultado de alguma intriga particular, visto que muitos dos policiais de baixa patente eram vizinhos dos trabalhadores do porto. 

Essa proximidade e convivência podiam gerar conflitos pessoais que eram resolvidos na demonstração de poder do policial sobre as vítimas. Muitos indivíduos poderiam ser enquadrados simplesmente por estar andando nas ruas em horários considerados impróprios ou por alguma “picuinha” do meganha. A suspeição estava cada vez mais generalizada e se o policial cismasse com alguém, era prisão na certa.8

Por outro lado, essa mesma natureza irregular do trabalho dos estivadores no porto, produzia um universo que extrapola o local de trabalho. A obra de João do Rio é fundamental para compreender o funcionamento do porto e as interações sociais produzidas a partir dele. Essa rotina dos trabalhadores chama a atenção de João do Rio, que escreve sobre a rotina árdua e trabalhosa dos estivadores e suas interações sociais pelas ruas do porto. Para ele, a rua é um espaço vivo, mutável, sempre à mercê de seus transeuntes e é nela que os trabalhadores se encontram, mobilizam e vivem. O estivador que carrega saco no cais é o mesmo que joga conversa fora no bar com seus companheiros de trabalho, que irá se alimentar nos restaurantes aos arredores, frequentar bordéis… E não somente os estivadores, mas também todos trabalhadores do porto; o universo portenho não se restringia ao local de trabalho. 

O porto e suas ruas eram os locais de encontro dos trabalhadores e, por consequência, de formação das suas identidades e sociabilidades. Dessa forma, um novo local de vida de vida era estabelecido, é aqui que se insere o conceito de Comunidade Portuária de Cezar Honorato: 

…trabalhadores que atuam diretamente na operação portuária, os que trabalham em atividades de suporte, apoio ou serviços vários, os que chegam como imigrantes para um novo país, a marujada, as prostitutas etc., com suas identidades, idiomas, religiões, hábitos e todos os demais traços culturais que acabam se misturando. Formam assim, uma cultura peculiar que está naquela cidade, mas que com ela não se confunde, faz parte dela, mas apresenta profundas diferenças com a cultura urbana mais geral, num contexto de transformação de um porto do tipo antigo em um outro do tipo capitalista.9

Devido à proximidade, ao contato diário, semelhanças culturais e problemas similares, os trabalhadores do porto se organizaram das mais diversas formas: sindicatos, associações de ajuda mútua, organizações, cordões, blocos, ranchos e agremiações. Cada uma dessas organizações teve seu próprio papel na formação da identidade trabalhista e cultural do porto, tendo cada uma delas, também, casos de perseguição e repressão. 

Conforme Sidney Chalhoub argumenta, “as classes possuidoras não mais poderiam garantir o suprimento de força de trabalho aos seus empreendimentos econômicos por meio da propriedade de trabalhadores escravos”10. Portanto, como manter o controle social que era exercido aos ex-escravizados? Visto que, os trabalhadores do porto eram os mesmos ex-escravizados. O sentimento da classe dominante de ameaça à ordem não se extinguiu com a proclamação da república. “Em todas as esferas da vida, contudo, o que se tem é a explicitação de um mesmo tipo de controle – aquele necessário à reprodução e perpetuação das relações capitalistas de produção -….”11. Desta maneira, não surpreende que com a repressão e preconceito a esses, agora, trabalhadores livres, os trabalhadores do porto fossem uma comunidade fechada, resistente a interferência externa e contrária às ações policiais, resolvendo suas intrigas e desavenças dentro da própria comunidade. Essa desconfiança com o sistema jurídico estava longe de ser infundada e se tratava em parte de uma herança cultural dos ex-escravizados, que se organizaram para resistir à opressão estatal.

Erika Bastos utiliza dos dados da casa de Detenção e dos boletins policiais para demonstrar que a repressão foi mais intensa com os trabalhadores negros. As informações contidas nas fontes revelam uma enorme quantidade de negros presos, sobre pretextos forjados e forçados. A situação chegou a tal ponto que foi denunciado a existência de formulários de prisão pré-preenchidos com somente os espaços do nome, data e local em branco. Erika demonstra a parcialidade, fraudulência e lentidão desses processos prisionais utilizando casos da época; o que ocorria era um processo de encarceramento em massa do povo negro, um projeto de forçar as classes de baixo a se adequarem ao comportamento das classes superiores. 

O problema é que, nas ruas, a qualquer momento o sujeito poderia ver seu sono interrompido pela voz de prisão. Afinal, não ter onde morar naqueles tempos dava cadeia e dormir ao relento, ou simplesmente estar na via pública sem fazer nada, era contravenção prevista no código penal.12

A repressão à vadiagem ou ao ócio, não se limitava somente aos desempregados ou aqueles que andavam a esmo pela cidade. Na realidade, em razão dos projetos da época, a repressão se estendia a todas as manifestações culturais e aos locais onde eram realizadas: bares, armazéns, clubes, agremiações e cortiços. Mas, por outro lado, a repressão produziu diversas redes sociabilização, que compunham a Comunidade Portuária, e a organização desses trabalhadores enquanto classe13

 As várias redes de sociabilidade vinculadas a razões religiosas, étnicas, de origem, de lazer (blocos de carnaval, clubes de futebol, de teatro, etc) ao sindicalismo nascente, tangenciam e se articulam com a comunidade portuária, pois que o cotidiano do trabalho acaba se materializando na região portuária como razão de ser deste homem simples.14

Todas essas relações sociais estabelecidas pela presença desses trabalhadores aos arredores do porto são as estruturas da Comunidade Portuária e, muitas vezes, é isso que vai garantir a sobrevivência desses homens. Toda riqueza política e cultural, produto desses homens que trabalhavam no porto, ainda reverberam no centro da cidade do Rio de Janeiro. De certa maneira quando João do Rio afirma que a rua tem alma e que nenhuma rua é idêntica, não se trata somente de uma figura de linguagem ou a licença poética, mas descende do fato de que o que determina a “alma” das ruas são as pessoas que nela habitam e caminham. Sendo assim, o porto do Rio devido a sua formação única ao longo dos séculos, não poderia deixar de ter uma alma única que encantou e ainda encanta, quem por ele se aventura.

  1. Depoimento na série “Cronistas do Rio: João do Rio”. Disponível em:
    <http://www.multirio.rj.gov.br/index.php/assista/tv/8387-joao-do-rio>
    Data de acesso: 01 de set. de 2020.
  2. 2016
  3. 1987, p. 107-11
  4. Ibid., p. 107
  5. BASTOS, 2010, p. 113
  6. RIBEIRO, 1997, p. 362
  7. Id. Ibid.
  8. Id. Ibid. p. 124.
  9. HONORATO, 2016, p. 3
  10. 2012, p. 66
  11. Id. Ibid. p. 148
  12. BASTOS, 2010, p. 115.
  13. Aqui não cabem interpretações de que a violência sofrida por essas pessoas
    tenha sido algo bom. Essa violência reforçou estigmas que persistem até hoje na
    sociedade brasileira. Entretanto, não é esse aspecto que pretendemos abordar.
  14. HONORATO, 2016, p. 4-5

* Matheus Freire é graduando em História na Universidade Federal Fluminense e bolsista PIBIC do Museu de Astronomia e Ciências Afins.

*Thereza Correa de Oliveira é graduanda de História pela Universidade Federal Fluminense (UFF).

One thought on “A Comunidade Portuária por João do Rio

  1. Parabéns, ótimo artigo que vocês escreveram.
    É importantíssimo mantermos viva a história de nossa cidade para entendermos muito do que ainda acontece até os dias de hoje.

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