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A natureza apagada dos mapas urbanos do Rio de Janeiro

Bruno Capilé – Pesquisador do Museu de Astronomia e Ciências Afins (MAST)

A paisagem natural do Rio de Janeiro possui uma beleza que marcou e ainda marca muitos dos que contemplaram as curvas das enseadas e dos relevos cariocas. Pelo mar, os europeus boquiabertos registraram em textos e imagens as maravilhas dos arredores da cidade. Pelo ar, milhares de turistas se encantam ao pousar no aeroporto Santos Dumont. Atualmente muitos de nós nem nos damos conta de que nossa paisagem já foi extremamente modificada ao longo destes séculos. Nesse processo de modificação, algumas paisagens foram veneradas e cultuadas (praias e montanhas), enquanto que outras foram deliberadamente esquecidas (ecossistemas alagados).

os mapas urbanos deixaram de apresentar os elementos naturais, tornando-os invisibilizados. Apenas permaneceram os rios, o contorno do litoral e os principais relevos.

No início do século XX, a transformação urbana modificou drasticamente o contorno de seu litoral. O desmonte dos morros do Castelo, do Senado e de Santo Antônio na região central forneceu material para o aterro das áreas alagadas próximas ao mar. O que impressiona é que grande parte dessas áreas alagadas já não eram mais representadas nos mapas urbanos décadas antes. Para quem idealizava a cidade, as restingas, os mangues e outras áreas alagadas eram obstáculos para o crescimento do território urbano. Em parte, podemos afirmar que a principal causa foi a transição ideológica de uma tradição cartográfica militar para uma centrada nos trabalhos e interesses de engenheiros. Vamos ver como se ocorreu essa história

Em 1812, o mapa Planta da Cidade de São Sebastião (Fig. 1) apresentava a região do atual Canal do Mangue com a representação de suas praias, areais e do manguezal de São Diogo. Marcado por uma tradição militar de retratar o terreno e sua topografia, este mapa mostrou os ecossistemas naturais do entorno da cidade.

Trechos e do manguezal de São Diogo, da "Planta da Cidade de S. Sebastião do Rio de Janeiro" - Ignacio Antonio dos Reis e pelo Paulo dos Santos Ferreira Souto, 1812. Fonte: Biblioteca Nacional Digital - Biblioteca Nacional do Brasil.

A cidade teve na década de 1850 um marco decisivo em seu aumento populacional com o aumento na entrada de imigrantes europeus. Esses novos corpos humanos eram mais suscetíveis às epidemias de febre amarela, e outras epidemias hoje associadas a mosquitos e áreas alagadas. A região do antigo manguezal de São Diogo, área que corresponde aos arredores do Canal do Mangue, nos atuais bairros da Cidade Nova e Praça da Bandeira. Esta área alagada separava a antiga área de construção urbana dos subúrbios da freguesia do Engenho Velho. Em mapa de 1852 (fig. 2), o ambiente físico ainda era representado na Planta da muito leal e heróica cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro.

Trecho do Manguezal de São Diogo da Planta da muito leal e heróica cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro (1852) Fonte: Biblioteca Nacional. Obs: mapa rotacionado.

Na década de 1870, os mapas urbanos deixaram de apresentar os elementos naturais, tornando-os invisibilizados. Apenas permaneceram os rios, o contorno do litoral e os principais relevos. O aumento populacional foi acompanhado pelo aumento de epidemias relacionadas a áreas alagadas com doenças como cólera e febre amarela. Uma nova visão de mundo relacionada ao higienismo da medicina social e engenharia civil tornou os ecossistemas alagados pouco atraentes para uma cidade que se modernizava. A Planta da Cidade de Sn. Sebastião do Rio de Janeiro do engenheiro arquiteto Luiz Schreiner representa a região como se o Canal do Mangue fosse já finalizado. Porém, ainda ilustra os alagadiços das áreas das fozes dos rios Maracanã e Joana (Figura 3, outra abaixo).

Trecho da Planta da Cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro de Luiz Schreiner (1872). Fonte: Biblioteca Nacional. Obs: Mapa rotacionado.

Conforme as cidades cresciam e se transformavam, os mapas urbanos deixaram de representar os ambientes naturais dentro e fora da cidade. No final do século XIX, os planos urbanísticos da cidade do Rio de Janeiro já quase não apresentavam os ecossistemas naturais que ainda existiam. Em 1903, em meio às grandes reformas urbanas, o mapa de Pereira Passos nem apresentava mais as antigas áreas alagadas. Apenas mencionava a cidade que viria a ser com linha tracejadas representando futuras ruas.

Trecho da Planta dos Melhoramentos Projetados pelo prefeito dr. Francisco Pereira Passos (1903). Fonte: Biblioteca Nacional. Obs: mapa rotacionado.

Os políticos imbuídos das ideias sanitárias de médicos e engenheiros apagaram simbolicamente as áreas alagadas dos mapas urbanos do Rio de Janeiro. Esse foi o caminho para as pequenas e grandes reformas que transformaram materialmente esses ecossistemas de lagoas, brejos e manguezais. Será que estes esforços eliminaram por completo estes ambientes? Ou será que algumas características ambientais persistiram até os dias de hoje?

Este texto é uma parte do artigo publicado na Revista Terra Brasilis em setembro de 2019 – Apagando a natureza: o desaparecimento dos ecossistemas alagados nos mapas urbanos do Rio de Janeiro.

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