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Caatinga, semiárido e sertão

Classificações e identidades do século XIX aos dias atuais

Elizeu Pinheiro da Cruz

Sertão, semiárido e caatinga são classificações de territórios que se relacionam intimamente na constituição do território baiano. A caatinga é descrita como o único bioma que só existe no Brasil, ocupando a região nordeste e um fragmento do estado de Minas Gerais, sendo que as áreas nativas mais expressivas estão na Bahia e no Piauí (LEAL; TABARELLI; SILVA, 2003). Conforme observamos nos mapas (Figuras 01 e 02), boa parte do território do semiárido (39,8%) é também território da caatinga, o que nos faz pensar que as taxonomias ou classificações de território estão intimamente relacionadas com a identidade regional.

Há processos de institucionalização dessas taxonomias, como as produzidas pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE, para definir a caatinga como um dos seis biomas brasileiro com 9,92% do território, juntamente com Amazônia (49,29%), Cerrado (23,92%), Pantanal (1,76%), Pampa (2,07%) e Mata Atlântica (13,04%). Mais da metade (54%) do território do estado da Bahia é constituído em um espaço geográfico que tem clima, solo e composição animal e vegetal distintos que viabilizam a sua classificação como Bioma Caatinga nas descrições produzidas por cientistas de três agrupamentos das Ciências Biológicas: Botânica, Ecologia e Zoologia.

O sertão, que está também relacionado a semiárido, categoria marcadamente presente nas políticas públicas para o nordeste, é também institucionalizado pelo IBGE como área de semiaridez (semiárido) e pobreza hidrográfica, mesmo com a presença de destacados rios do Brasil, o Rio São Francisco.

Figura 1 – Representação dos biomas brasileiros no mapa do Brasil. Escala de 1: 5.000.000 (primeira aproximação). Fiz um destaque (círculo pontilhado) do território que investigo com suas duas peculiaridades: presença do único bioma existente no Brasil e por ser uma região ecotonal de encontro da caatinga, cerrado e mata atlântica. Fonte: IBGE

Figura 2 – Mapa que apresenta abrangência da região semiárida no Brasil apresentado pelo Ministério da Integração Nacional em 2005. Fonte: Brasil (2005)

As expedições dos naturalistas e as expedições contemporâneas: endemismos e produção do território

Expedições de exploração e coleta de espécimes nesses territórios remetem aos viajantes naturalistas portugueses do século XIX, como o príncipe Maximiliano de Wied-Neuwied, que esteve o interior da Bahia entre 1815 e 1817 produzindo descrições da natureza e coletando exemplares da biodiversidade baiana, definindo como sertão, em tons sublime e maravilhado. Tais descrições podem ser consideradas um marco para os estudos etnológicos no Brasil (COSTA, 2008) e corroboram indícios de que o conceito de “sertão” é também uma invenção dos colonizadores portugueses para atender a uma dupla finalidade: classificar o distante e o exótico e distribuir identidades que pode também assumir o sentido de liberdade e paraíso ecológico a depender do lugar de fala (AMADO, 1995). Dessa forma, as narrativas desse príncipe austríaco sobre os grandes espaços interiores e poucos conhecidos nos permite retomar a questão escalar utilizada pelos portugueses desde o século XIV para designar de “sertão” as regiões portuguesas distantes de Lisboa.

Euclides da Cunha, com a construção do arquétipo da brasilidade sertaneja, destaca a paisagem desse território com aspecto atormentado ainda que sua clássica obra “Os sertões” tenha contribuído com a fundação das reflexões sobre as singularidades socioculturais do Brasil (REZENDE, 2001). João Guimaraes Rosa, em “Grandes sertões: veredas”, confronta duas geografias, uma real e outra inventada, para construir o sertão como um pensamento mais forte do que o poder do lugar físico-geográfico, uma imagem arcaica e histórica (BOLLE, 1998).

O sertão é, então, um protagonista dos relatos de naturalistas, da literatura, da historiografia e de outras descrições do/sobre o Brasil. Porém, é um verbete que apresenta imprecisão e inadequação, sendo utilizado, a partir do século XIX, para pensar a nação (AMADO, 1995) e pode ser acompanhado da ideia de aridez ou despovoamento (ANTONIO FILHO, 2011), com ausência de mata fechada.

Essas taxonomias que ganharam destaque nas produções literárias e acadêmicas nacionais para territórios são produções de humanos “de fora” da região, o que nos coloca uma reivindicação no tempo presente: um movimento de recuperação do trabalho dos agentes (humanos e não humanos) para forjar, na experiência de existência no sertão (existência situada), as suas próprias taxonomias para plantas e animais imbricadas com as classificações do lugar (do território) em processos de mobilidade que colocam as fronteiras em um constante redesenhar.

A pesquisa de doutorado “Vidas engajadas e engajamentos que dão vida na história das ciências do tempo presente: itinerários da Botânica, da Ecologia e da Zoologia no sudoeste do Estado da Bahia, Brasil (1999-2016)”, desenvolvida por mim e sob a orientação da Professora Moema de Rezende Vergara, enfrenta tais questões em um exercício teórico-metodológico de produção de uma “história das ciências do tempo presente em e da mobilidade”. A tese propõe pensar não apenas as fronteiras da caatinga, semiárido e sertão emergindo nos endemismos (cactáceas, abelhas, vespas, orquídeas e outros seres) descritos pelos agrupamentos Botânica, Ecologia e Zoologia, mas também as fronteiras desses agrupamentos na constituição das Ciências Biológicas e na constituição de uma possibilidade para a História das ciências local.

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