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Cartografia na Comissão Rondon: a Carta de Mato Grosso

Maria Gabriela Bernardino

Embora muito conhecida por seus trabalhos com o telégrafo ou até mesmo pelo contato com povos indígenas, a Comissão Rondon se tornou popular no imaginário brasileiro. Entretanto, por meio do projeto de pesquisa Inventário da natureza do Brasil: as atividades científicas da Comissão Rondon (1907-1930) realizado na Casa de Oswaldo Cruz-Fiocruz e coordenado pela pesquisadora Dominichi Miranda de Sá, foi apresentado que as atividades científicas também eram uma prioridade da comissão em questão. No âmbito desta pesquisa, me pareceu interessante e resolvi dedicar-me às atividades cartográficas desenvolvidas pela comissão, entendendo-as como um grande legado e tendo como principal produto a Carta do Estado de Mato Grosso e Regiões Circunvizinhas. Uma vez que durante este estudo, me deparei com uma batalha litigiosa entre o estado de Mato Grosso e do Pará acerca de território. A questão girava em torno da reivindicação do Pará por 2,4 milhões de hectares ?área equivalente ao estado de Sergipe na região oeste de Mato Grosso. Dentre outros documentos, a Carta do Estado de Mato Grosso teve bastante relevância na disputa e assim, comprovadamente, percebemos, o quanto este mapa ainda é fundamental para o Brasil.

A carta, publicada em 1952, é colorida e possui 2,30 m X 1,98 m (por isso, se encontra distribuída em folhas), projeção policônica americana e uma escala de 1:1.000.000. Em sua legenda constam os feitos realizados pelo Marechal Rondon desde a última década do século XIX. Neste pequeno esboço, pretendo abordar a cartografia desenvolvida pela Comissão Rondon, uma vez que foi criado um serviço específico para dar conta dos mapas produzidos pela mesma, com o objetivo de se confeccionar um mapa para o Estado de Mato Grosso. Em 1917 foi criado o Serviço de Conclusão da Carta de Mato Grosso e Regiões Circunvizinhas. A solicitação de uma elaboração da carta de Mato Grosso foi feita a Rondon pelo governador do estado. O objetivo principal deste serviço era reunir todos os levantamentos cartográficos e topográficos encontrados na Seção de Desenho da Comissão Rondon e, a partir desses documentos, teve início uma nova exploração a fim de complementar o material arquivado e por fim confeccionar uma nova Carta para o Estado de Mato Grosso.

Carta de Mato Grosso, publicada em 1952. Fonte: Museu do Índio

Comemoração do Primeiro Centenário da Independência do Brasil – Cartão Postal Diversões. Fonte: wikiurbs.info. Acessado em 11/06/2014

Revolução de 30. Foto ilustrativa retirada do site infoescola.com.
Acessado em 13/06/2014

O então Coronel Rondon foi nomeado Diretor Geral do Serviço de Conclusão da Carta de Mato Grosso, tendo o Capitão Francisco Jaguaribe de Mattos, um dos grandes responsáveis pela Cartografia desenvolvida no âmbito da Comissão Rondon, como Chefe da Seção de Desenho deste serviço. A data prevista para a finalização da carta foi propositalmente setembro de 1922, pois naquela ocasião, aconteceria a Exposição Internacional Comemorativa do Centenário da Independência do Brasil.

Em meio aos preparativos para a comemoração do centenário, Rondon recebeu o convite do General. E. Gamelin, Chefe da Missão Militar Francesa no Brasil, para que a carta fosse impressa nas oficinas do Service Géographique de l’Armée – Paris. Aceito o convite, o Capitão Francisco Jaguaribe foi enviado a capital francesa tendo como propósito a finalização e impressão da carta.

Apesar da iniciativa, Rondon subestimou o tempo e o objetivo não foi cumprido. No entanto, para uma boa representatividade da Comissão Rondon para a comemoração pelo centenário da independência, foi confeccionada especialmente para a ocasião, uma espécie de ?prévia? do que seria a Carta de Mato Grosso, a qual foi denominada ?Carta Esquemática do Estado de Mato Grosso e Regiões Circunvizinhas 1890-1922?. A carta produzida foi uma espécie de síntese dos feitos da comissão na região apresentada como, por exemplo: índios pacificados, linhas telegráficas construídas, jazidas minerais desvendadas, estações onde funcionavam escolas para índios, entre outros. Considero que esta carta tenha funcionado como grande propagandista dos feitos comissão.

Na segunda metade da década de 20, o Serviço de Conclusão da Carta de Mato Grosso contou com novo acervo cartográfico oriundo de um outro serviço liderado por Rondon: O Serviço de Inspeção de Fronteiras (1927-1930). Contudo, a dissolução da Comissão Rondon devido a Revolução de 30, teve por conseqüência a interrupção da elaboração da carta, só sendo reiniciado em 1939.

Carta Esquemática do Estado de Mato Grosso, publicada em 1922.
Fonte: Mapoteca do Arquivo Histórico do Exército.

Enfim, a conclusão da Carta de Mato Grosso

O Estado de Mato Grosso e o Ministério da Guerra estabeleceram um acordo em 1941, o qual ficou estabelecido a confecção, impressão e distribuição da carta. O desenho definitivo e integral da Carta foi (re) iniciado após a campanha expedicionária 1941/1942 realizada pelo Tenente Luiz Moreira de Paula que viajou para o sul de Mato Grosso tendo por finalidade o reconhecimento do rio Jaucoara e de outros pontos do estado. Contudo, todo o acervo da Comissão foi transferido do Ministério da Guerra para o Ministério da Agricultura, através de acordo firmado em função da criação por este Ministério do Conselho Nacional de Proteção aos Índios. Entretanto, apenas em 1949/1950 foi conseguido novo crédito para a impressão da Carta. Após inúmeras interrupções e reativações do Serviço de Conclusão da Carta de Mato Grosso, enfim em 1952, tivemos o resultado de um imenso acervo cartográfico de oriundas expedições: a carta de Mato Grosso finalmente foi publicada. Não parece exagero afirmar que a Cartografia sempre esteve presente nas atividades desenvolvidas no âmbito da Comissão Rondon. O Serviço de Conclusão da Carta de Mato Grosso, ainda que tenha passado por interrupções, nos seus 35 anos de ?gestação?, ilustra o destaque dado a esta ciência nas ações desta comissão. É importante destacar que a publicação da carta foi o último trabalho publicado de Rondon, a esta altura com 87 anos. Imagino que para Rondon este mapa, além de sintetizar o trabalho de todas as comissões que ele participou de alguma forma, apresenta a busca por reconhecimento de uma vida dedicada ao Brasil.

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