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O Clube de Engenharia na confecção da Carta Geográfica do Brasil para a comemoração do 1º Centenário de Independência do Brasil

Bruno Capilé – Pesquisador do Museu de Astronomia e Ciências Afins (MAST) e líder do grupo de pesquisa do CNPq Território, Ciência e Nação

Nas comemorações do 1º Centenário de Independência do Brasil em 1922, o Clube de Engenharia publicou a Carta Geográfica do Brasil – Carta de 1922. O mapa foi fundamental na resolução de problemas como os litígios fronteiriços entre os estados brasileiros, no planejamento das estruturas de integração nacional (ferrovias, portos, telégrafos), e na drástica redução de antigos erros cartográficos. Nas palavras de muitos, o primeiro “mapa científico” do Brasil. No cenário internacional, a Carta de 1922 no projeto de mapeamento mundial pela Comissão Internacional do Mapa ao Milionésimo foi o único mapa latino-americano elaborado por instituições locais.

Figura 1: Carta Geographica do Brasil: em commemoração do primeiro centenário da independência. Escala 1 : 1.000.000 (Fonte: Biblioteca Nacional).

Ao longo das histórias das nações, os mapas foram dispositivos indispensáveis para legitimar a autoridade do Estado sobre o espaço. Além do uso político, possuíram também uma finalidade pedagógica com o intuito de difundir uma determinada representação do espaço nacional, dentro e fora do Brasil. O ato de fazer mapas foi pautado por um conjunto de critérios e procedimentos científicos que conferiam maior legitimidade às intenções e objetivos de determinada representação do território nacional. Desta maneira, o discurso científico por trás dos traços cartográficos da Carta de 1922 foi atribuído aos engenheiros, lançando-os como principais arautos da modernização brasileira no 1º Centenário de Independência. Os engenheiros consagraram sua participação como classe dominante ao comandar a representação do território nacional e sua forte conotação identitária.

Originalmente, a demanda de um mapa nacional sem os equívocos dos mapas do passado começou a ser desenvolvido pelo Serviço Geográfico do Exército nos primeiros anos da República. O compromisso com a defesa e soberania nacional e a modernização do país também foi motivação para o governo militar realizar o mapa. No entanto, a partir de 1908, a metodologia de levantamento topográfico realizado por meio de triangulações foi duramente criticada pela sua demora. O Clube de Engenharia, através do sócio Henrique Morize, que também era diretor do Observatório Nacional, liderou os debates dessas críticas. A solução proposta foi o de conciliar métodos astronômicos, para calcular as latitudes e longitudes dos pontos de referências estratégicos, junto com a compilação de mapas pretéritos.

O grupo de pesquisa Território, Ciência e Nação do Museu de Astronomia e Ciências Afins (MAST) vem pesquisando as relações entre a história da cartografia e das ciências na formação territorial do Brasil. Nesse contexto, a desenvoltura dos engenheiros na produção de conhecimento e na integração nacional com sua ferrovias e telégrafos resultou numa posição de destaque destes agentes na história da nação. Desde o seu início em 24 de novembro de 1880, o Clube de Engenharia foi elaborado em uma forte articulação entre engenheiros e empresários. Ao se distanciar do caráter “academicista” comumente associado ao regime monárquico, o Clube fortaleceu-se com a chegada dos republicanos ao poder em 1889. Presentes na expansão das redes viárias e telegráficas, e na modernização das transformações urbanas do início do século, os engenheiros produziam e consumiam diferentes informações sobre o território brasileiro. Já nas primeiras décadas do século XX, a instituição tornou-se um coletivo de prestígio nos debates de modernização nacional e integração territorial. O crescimento da participação do Clube de Engenharia nas políticas nacionais deveu-se muito a Paulo de Frontin que foi presidente por 30 anos (1903-1933) além de atuar como Senador da República a partir do ano de 1917.

Figura 2: Quadro de união das folhas brasileiras. Escala 1 : 50.000.000 (Fonte: Biblioteca Nacional).

O documento na escala de 1 : 1.000.000 apresentou a imagem do território nacional em 52 folhas cartográficas, sendo uma empreitada de cooperação nacional e internacional. Desde seu início em 1915, a Comissão da Carta Geográfica do Brasil contou com diferentes instituições de produção cartográfica que forneceram amplo apoio no fornecimento de mapas como o Ministério das Relações Exteriores e o da Guerra, incluindo muitos estados e municípios. O relator da Comissão e chefe da Repartição Geral dos Telégrafos (RGT), Francisco Bhering, fez um forte apelo a todos os brasileiros para mandar informações sobre toponímias e divisas internas. A atuação ativa deu-se mais pelo próprio Clube de Engenharia em parceria com a RGT e do Observatório Nacional. No último andar do prédio dos Telégrafos, antes Paço Imperial, o escritório contava com

“três ou quatro mesas enormes, forradas de mapas (…) e em meio de paredes ocupadas por vastas estantes, atopetadas de livros, folhetos (…) dos arquivos do Exército, da Marinha, do Ministério das Relações Exteriores, etc., de mil e uma fontes oficiais e particulares, sulamericanas e transcontinentais” (O PAIZ, p. 5, 28 de abril de 1923).

Segundo o contexto internacional de padronização e universalização da cartografia mundial, o mapa foi elaborado segundo os critérios da Comissão Internacional do Mapa do Mundo ao Milionésimo, na Inglaterra. A proposta original surgiu no 5º Congresso Internacional de Geografia na Suíça em 1891. Após intensos debates entre os principais países da geopolítica da época, a ideia de uma nova imagem cartográfica do mundo comum a toda a humanidade foi aceita por 35 países. O Brasil foi o único país latinoamericano que terminou os trabalhos cartográficos de seu território, sendo o Clube de Engenharia a única instituição civil fora do Estado a atuar nesse projeto em todo o planeta.

A Carta de 1922 foi fortemente evocada por governadores, militares e profissionais civis em projetos relacionados à Defesa Nacional, à modernização político-administrativa do Estado e ao recrudescimento da identidade nacional coletiva. Circulando em muitas instituições estatais e privadas que solicitavam uma cópia ao Clube de Engenharia, o mapa foi a base cartográfica para muitos outros mapas específicos de geologia, solos, hidrografia, ferrovias, principais cascatas com potenciais hidrelétricos. Assim como foi crucial para a realização de importantes medidas nacionais, como as áreas dos estados da federação. Marcando assim uma nova geração de produção cartográfica brasileira.

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