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Reflexões sobre vivências e reapropriação social da natureza semiárida

Ingryd Hayara*

Por muitas vezes, o Semiárido Brasileiro foi representado como um espaço geográfico limitado pela existência de uma hostilidade ambiental, caracterizada por temperaturas elevadas e natureza inóspita. Diversos foram as práticas, atores e discursos que, ao longo do tempo, contribuíram para que essa identidade semiárida se cristalizasse no imaginário popular, como as ações governamentais baseadas em uma lógica tecnicista e descontextualizada, a literatura, a música, o cinema e os meios de comunicação. Esses fatores contribuíram para consolidar uma visão estigmatizada que perdura até os dias atuais, na qual associa, constantemente, esse território a seca, pobreza, fome e êxodo rural.

Neste texto, apresentarei alguns desses fatores. Contudo, pretendo dar uma maior atenção às perspectivas e experiências que, recentemente, tem repensado na valorização desses territórios por meio do paradigma da Convivência com o Semiárido, que busca reconhecer as potencialidades do bioma Caatinga, além de valorizar as contribuições das comunidades e ancestralidades que ressignificam as relações homem-natureza. Essas reflexões foram realizadas a partir dos resultados da pesquisa “(Re)existências: laços de compadrio e luta pela terra”, que buscou investigar as vivências de atores e atrizes com o Semiárido.

A construção de um imaginário cristalizado sobre o Semiárido

Para falar sobre os estereótipos dos territórios semiáridos que circundam o imaginário popular, é necessário voltarmos os olhos para práticas e discursos que se mantiveram ao longo do tempo.
Os períodos de estiagem fazem parte da dinâmica ambiental das zonas áridas, semiáridas e subúmidas, de forma cíclica e, portanto, previsível. No Brasil, a estiagem de 1877-1879, foi a primeira a ter ampla repercussão, devido o período de vulnerabilidade em que as áreas semiáridas passavam, em especial, pela decadência do algodão que ocasionou um grande movimento de êxodo rural no norte do país.

Esse acontecimento mobilizou o governo brasileiro a elaborar estratégias de dominação da semiaridez com a ajuda das elites regionais que tiveram grande influência nesse processo, uma vez que viam nos períodos de estiagem, uma forma de barganha para conseguir mais investimentos financeiros. Em decorrência disso, foram criados os primeiros órgãos que seriam responsáveis por pensar a seca como algo que precisava ser combatido. Todavia, a implementação dessas instituições trouxe uma política que não dialogava com as pessoas que receberam essas obras assistencialistas. As ações desenvolvidas pelo Estado eram marcadas pela lógica tecnicista, sendo empreendidas de forma emergencial, sem levar em consideração as singularidades desses territórios.

Assim, emerge uma ideia de se conhecer e dominar a natureza semiárida, como se fosse um objeto passivo de ser controlado pelo homem. Nessa perspectiva, os territórios semiáridos apresentariam locais com escassez de recursos naturais e, portanto, era motivo para que tivesse o desenvolvimento prejudicado, ignorando aspectos como as imensas desigualdades sociais, a exemplo do acesso à renda, e centralização de latifúndios. Para a pesquisadora Luzineide Carvalho, em meio a esse contexto, “caberia ao Estado-nacional a tarefa de ‘civilizar’ o território, corrigindo o determinismo natural cujas intervenções dar-se-iam conta de inserir esse território dentro da ideia de nação forte, direcionando-o para o desenvolvimento nacional”.

Em seus estudos, o historiador Albuquerque Júnior também partilha que algumas práticas e discursos contribuíram para a formação desse imaginário popular sobre um Nordeste que, na verdade, sempre era associado ao território Semiárido O cenário literário, por exemplo, foi marcado com o lançamento de livros que traziam o Nordeste como pano de fundo. No livro Os Sertões (1906), para além de relatar a Guerra de Canudos, Euclides da Cunha analisa aspectos da paisagem e do homem nordestino que, para ele, era definido pelo meio que vivia. Anos depois, surge o Congresso Regionalista de 1930, no qual se destacam autores como Raquel de Queiroz, José Lins do Rego e Jorge Amado, que pautavam a região sempre por uma perspectiva semelhante, trazendo discussões em seus livros que acabaram sendo apropriadas pelo resto do país, alimentando a visão de uma região castigada pela natureza hostil..

O cenário musical também colaborou para essa construção. Na década de 1940, o Brasil viu ascender um “representante” do Nordeste que surpreendia a todos pelo ritmo dançante. As canções de Luiz Gonzaga reforçaram a visão dessa região como um espaço a parte do país, que era oposto ao Sul. O “sertão” de Gonzaga era feito de saudades e memórias de um lugar que, aparentemente, vivia preso ao período cíclico da natureza. Nas suas cantigas, os períodos de secas eram marcados pela tristeza e a dor da partida, enquanto os invernos representavam a felicidade e renovação da fé.

Acrescentando esse cenário, a ficção cinematográfica levou às telas de cinema – e, posteriormente, de televisões – imagens que ficariam marcadas até os dias atuais. Desde a década de 1930, o Nordeste é cenário importante em várias produções cinematográficas, no entanto as imagens apresentadas são cercadas de elementos que estereotipam a região, a exemplo da natureza que constantemente aparece como um personagem inóspito e rude, que impulsiona a migração.

Albuquerque Júnior defende que todos esses eventos e práticas fizeram emergir a ideia de Nordeste entre as camadas mais populares do país. Apesar de estarmos falando sobre acontecimentos e discursos da primeira metade do século XX, é interessante observarmos que a consolidação desse estereótipo teve e ainda tem grandes impactos sobre os territórios semiáridos. O Semiárido Brasileiro apresenta condições climáticas e vegetativas superiores em relação a outras zonas semiáridas, no entanto, ainda se encontra dificuldades em aproveitar suas potencialidades. A falta de um sistema regional de áreas protegidas e a demora na efetivação de políticas públicas de preservação e conservação do bioma Caatinga facilita as ações de desmatamentos e queimadas.

A ideia-projeto de conviver bem com os territórios semiáridos

As primeiras movimentações para fomentação da ideia de conviver com os territórios semiáridos, ocorreram na década de 1970, através da ação da sociedade civil e algumas instituições. Na Bahia, por exemplo, o modo de vida de algumas comunidades – hoje, conhecidas como fundos e fechos de pasto – chamaram atenção de algumas entidades, uma vez que elas velavam os princípios de preservação e coexistência com as áreas semiáridas A partir disso, diversas instituições, movimentos sociais, sindicatos rurais, associações, cooperativas e organizações não governamentais, em diversos locais, começaram a disseminar novas formas de (re)pensar esse vínculo homem-natureza, compreendendo suas particularidades e promovendo a concepção de que é preciso desenvolver estratégias para adaptar-se ao território e, portanto, conviver com ele.

Em uma entrevista realizada com Haroldo Schistek, um dos idealizadores e atual presidente do Instituto Regional da Pequena Agropecuária Apropriada/IRPAA – organização não governamental que busca prestar assistência e desenvolver projetos que se adaptam aos povos locais, estimulando a agricultura familiar aliada a práticas de valorização da Caatinga – ele me contou que a ideia-projeto da Convivência com o Semiárido não foi inventada no escritório ou em âmbito acadêmico e sim, algo que foi coletivamente construído. Para além dos diversos povos envolvidos, a observação da natureza semiárida foi essencial para o fortalecimento da ideia de viver bem. Haroldo se recorda que, na época, começaram a notar que o plantio de algumas monoculturas, como o milho e o feijão, não tinham um bom desenvolvimento, enquanto as plantas típicas da caatinga permaneciam resilientes. Assim, esses aspectos evidenciavam mais um comportamento errado em relação a natureza do que uma estiagem, de fato.

Para Luzineide Carvalho, a Convivência com o Semiárido é um guarda chuva que ampara todos que buscam por uma outra/nova maneira de viver se relacionar com o Semiárido. A ‘Convivência’ guarda a tradição e os conhecimentos dos povos sertanejos que, através das práticas de coletividade, ampliam as maneiras de viver e se relacionar com a “mundaneidade semiárida”, na contemporaneidade. Assim, ao ressignificar os elementos identitários das gentes do sertão, ela traz outro/novo olhar sobre o Semiárido, destacando suas características próprias, delimitadas pela complexidade existente neste território. Emerge um território simbólico-cultural, dimensionado pelos elementos materiais e imateriais presentes na produção e reprodução da vida de homens e mulheres que vivem a mundaneidade semiárida há séculos.

Ressignificando vivências: experiências com comunidades tradicionais no Semiárido Baiano

Recordo que a questão da “Convivência com o Semiárido” me foi apresentada durante um curso de extensão, no primeiro período da minha graduação em Jornalismo em Multimeios, em 2014. A proposta do curso era oferecer uma capacitação para estudantes da área da Comunicação, para que esses possam pensar em uma comunicação que promovesse as viabilidades dos territórios semiáridos. Ficamos três dias no Centro de Formação D. José Rodrigues, que fica a 12km da cidade de Juazeiro-BA. No decorrer do encontro, imergimos em questões, como a compreensão das particularidades do clima semiárido, as possibilidades de acesso e gestão da água, educação contextualizada com o Semiárido, além de alternativas para a promoção do território nos meios de comunicação. Todas as discussões eram acompanhadas de vivências que possibilitavam que os estudantes tivessem experiências práticas.

Quatro anos após esse acontecimento, eu estava apresentando à comunidade acadêmica os resultados do projeto “(Re)existências: laços de compadrio e luta pela terra”, fruto do meu Trabalho de Conclusão de Curso, que investigou como os povos tradicionais de fundo de pasto se relacionam com o Semiárido, explorando as viabilidades da vivência com esse território. A proposta da temática surgiu após anos de estudos e reflexões sobre a temática, além de algumas experiências vividas, ocasionalmente. Esses aspectos me instigaram a querer imergir, com maior profundidade, então decidi pesquisar e vivenciar, na prática, as ações e costumes dos moradores dos fundos de pasto para estabelecer uma vivência ressignificada com o território.

Para isso, desenvolvi minha pesquisa na Comunidade de Cachoeirinha, localizada a 60km de Juazeiro-BA. Atualmente, cerca de 30 famílias vivem no local, ocupando uma área de quase 1.400 hectares. A data de origem da comunidade ainda é incerta, mas, estima-se que em 1870, a área já pertencia ao patriarca Pedro Conceição que, por volta da década de 1890, presenteou a propriedade no casamento da filha Maria Ferreira da Conceição e ao seu esposo, Zacarias Simões da Gama. Nessas terras, eles criaram os filhos, netos, bisnetos e tataranetos que, até os dias de hoje, ocupam esse território.

Cachoeirinha compartilha de todas as características comumente associadas aos fundos de pasto. Segundo o pesquisador Ferraro Júnior, os sistemas de fundos de pastos seriam a forma mais conveniente de sobrevivência no Semiárido, devido às formas de exploração extensivas e sobrepostas. Essas comunidades têm como principal característica o uso comunitário das terras para a criação de animais à solta. Para Adriana Silva, a vida comunal é o ponto chave dessas comunidades, uma vez que é comum ver um sistema de consanguinidade, pautado por casamentos endogâmicos. Assim, para além da dependência um dos outros, esses povos mantêm uma relação de ecodependência com a natureza semiárida.

Em virtude das características do clima semiárido, como as chuvas irregulares e alto grau de evaporação, essas comunidades desenvolvem o pastoreio extensivo em todas as épocas do ano. A caprinovinocultura também é uma característica marcante, uma vez que esses animais se adaptam bem a esses territórios, por serem de pequeno porte e se alimentarem da vegetação nativa, se tornam mais rentáveis para os criadores.

A criação de caprinos e ovinos é a principal atividade geradora de renda para Cachoeirinha. Algumas famílias se dedicam a vender a carne, enquanto outras vendem os animais ainda vivos. Para além da renda, a carne, o leite e seus derivados, são consumidos, diariamente, nas mesas das famílias. Os animais são soltos durante o dia, buscando na Caatinga a sua fonte de alimentação. Para que elas sejam facilmente reconhecidas e não se misturem a outros animais, existe uma prática ancestral de marcar os animais por meios de cortes na orelhas, os chamados “sinais de mourão”.

Outros elementos que podemos notar é o desenvolvimento de uma agricultura de subsistência aliado ao cuidado e preservação do bioma Caatinga. O cultivo de hortaliças e frutíferas nos quintais produtivos são protagonizados pelas mulheres e são utilizados para consumo doméstico, proporcionando uma estabilidade alimentar nas famílias.

Para além da alimentação, em muitas comunidades, o extrativismo de plantas típicas da Caatinga é uma atividade que gera renda para os agricultores do norte da Bahia. Em 2004, foi criada a Cooperativa de Agropecuária Familiar de Canudos, Uauá e Curaçá – COOPERCUC, que atua junto a 450 famílias, em sua maioria, lideradas por mulheres, de 18 comunidades. Cooperativas como a Coopercuc, buscam a valorização dos potenciais da sociobiodiversidade da Caatinga, no âmbito do extrativismo sustentável e da agricultura familiar. Assim, comercializam diversos produtos, como doces, geleias, compotas e polpas, para o Brasil e o mundo.

Dessa forma, aos poucos, as comunidades vão ressignificando suas relações com a natureza, através de uma reapropriação social dos territórios semiáridos. Em entrevista com Adriana Silva, que estudou durante dois anos os fundos de pasto, a pesquisadora revela que essas comunidades vão “se construindo na conjunção do que é do passado, das origens desse povo, do que é próprio das institucionalidades, que vem chegando para fazer as intervenções com as tecnologias sociais, no sentido da garantia da água, no sentido da cultura, do guardar, e que vão trazendo elementos novos que vão se incorporando neste modo de vida”, explica.

Aos poucos, esses aspectos de bem viver com o Semiárido têm trazido mudanças significativas sobre as vivências e experiências nas relações homem-natureza. É interessante observar, por exemplo, a ocorrência cada vez mais frequente de pessoas que, há décadas, fizeram parte do movimento de êxodo rural em direção às grandes metrópoles e, hoje, estão retornando para a comunidade de origem, em busca de uma maior qualidade de vida e reaproximação das ancestralidades.

É possível conviver com o Semiárido. Para isso, no entanto, é necessário trazer possibilidades para que as pessoas possam viver bem nesse território. Assim, é preciso consolidar oportunidades para a melhoria do padrão de vida dos moradores e moradoras, em especial, jovens e mulheres, incentivando o desenvolvimento do capital social, a agricultura familiar para o aumento de renda, a partir de fontes agrícolas ou não-agrícolas, o acesso a água e a educação. Dessa forma, nos deparamos com os desafios de consolidar, aperfeiçoar e ampliar políticas públicas que dialoguem com as experiências históricas das comunidades, permitindo a sua reprodução cultural, social, política, econômica e ancestral.

Sugestão de links:
Instituto da Pequena Agropecuária Apropriada (https://irpaa.org/)
(Re)existências: laços de compadrio e luta pela terra (https://www.reexistencias.com/)
Cooperativa de Agropecuária Familiar de Canudos, Uauá e Curaçá (http://www.coopercuc.com.br/)

*Ingryd Hayara é estudante do Programa de Pós-Graduação em Educação, Cultura e Territórios Semiáridos, PPGESA, vinculado à Universidade do Estado da Bahia, UNEB. Para o Trabalho de Conclusão de Curso da graduação em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo em Multimeios, UNEB, desenvolveu a reportagem multimídia “(Re)existências: laços de compadrio e luta pela terra”, que trouxe narrativas de moradores e moradoras da Comunidade de Cachoeirinha, que estão ressignificando suas vivências e criando novos paradigmas e viabilidades de convivência com o território Semiárido.

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