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Samba e a identidade nacional no Estado Novo

Leandro Silva Machado Dos Santos*

A Identidade Nacional é um processo criado/forjado em diversos momentos da história de um povo, geralmente isso é articulado por aqueles que detêm o controle sociopolítico. O Brasil do Estado Novo foi um dos grandes responsáveis pela formulação de uma Identidade Nacional brasileira, utilizando-se de elementos da cultura popular como forma de disseminar um discurso, ou melhor dizendo, uma ideologia oficial que representasse o governo e unisse o povo. Nesse sentido, o samba das décadas de 1930 e 1940 foi demasiadamente explorado pelo governo Vargas para difundir aquilo que constituía os interesses político-sociais do governo. Tudo isso em um processo de ressignificação pautado na transformação dos discursos que eram difundidos pelo samba em um discurso político capaz de formular uma suposta Identidade Nacional

Um ritmo popular brasileiro de proporções dantescas. Assim pode/deve ser definido o samba, com paradigmas diretamente ligados aos temas sócio-políticos da primeira metade do século XX que certamente, em decorrência disso, torna-se uma importante fonte de averiguação sobre o passado. É esse o contexto desenvolvido por Claudia Neiva de Matos em sua brilhantíssima obra: ‘’Acertei no milhar: samba e malandragem no tempo de Getúlio (1982)’’.

Claudia de Matos possui pós-doutorado em Estudos Culturais pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (2008), tendo atuado como docente na área de Letras e Literatura pela Universidade Federal Fluminense e pela Universidade Pontifícia CatólicaRJ. Os seus trabalhos têm como um dos temas principais as análises poéticas; destacando-se, nesse aspecto, as suas obras: ‘’Acertei no milhar: samba e malandragem no tempo de Getúlio (1982)’’ e ‘’A poesia popular na República das Letras: Sílvio Romero folclorista (1994)’’. No livro de 1982, a autora analisa e discute letras de samba da chamada Era Vargas. Nessa resenha serão analisados os capítulos cinco e seis deste livro, que discutem os estigmas sociais, bem como a questão do trabalho, políticas Varguistas, preconceito social, entre outros, relacionados aos sambistas. 

A escrita dos capítulos demonstra grande fluidez e interatividade, atraindo a atenção e a curiosidade do leitor. É de se destacar que a inserção de letras de sambas ao longo do texto permite uma maior interação do leitor com o respectivo objeto retratado, sendo justamente um samba que intitula o livro. Nesse contexto, merecem destaque as letras do sambista Wilson Batista, importante compositor o qual, por meio de seus sambas, expressa de maneira espetacular as problematizações analisadas por Claudia de Matos acerca das cosmovisões que marcaram o decorrer do período Vargas.

O primeiro capítulo analisado, O Inimigo do Batente, discute, a priori, a noção de malandro/malandragem na década de 1930, pois essa noção é amplamente inserida dentro dos discursos propagados no samba. O malandro é definido como aquele que, de certa forma, se opõe ao trabalho, sobretudo aquele que exige intenso esforço. Ou seja, o malandro não é alguém que não exerce nenhum tipo de trabalho, e sim quem, como o próprio Moreira Silva exemplifica no livro, ‘’não pega no pesado’’ (1982, p. 77), incluindo nessa categoria até mesmo determinados tipos de funcionários públicos. Obviamente, o malandro poderia complementar sua renda, ou até mesmo sustentar-se inteiramente, por meio de trabalhos ilícitos (roubos, cafetinagem, jogos de azar, entre outros). Os jogos de azar eram extremamente costumeiros na vida deles. Ainda hoje, costuma-se retratar o malandro, erroneamente, como um eterno vadio e exclusivo das classes populares, certamente como forma de manter e de propagar o discurso ideológico de depreciação dos menos favorecidos socialmente.

A autora logo faz questão de responder uma inquietação que, talvez, poderia surgir em seu leitor: o de o porquê alguém defender e difundir uma manifestação contrária ao trabalho. Claudia de Matos aponta que as contradições e as injustiças do sistema capitalista são motivadoras disso, pois na medida em que o capitalismo propaga a lógica de enriquecimento pessoal por meio do trabalho, discurso amplamente defendido e difundido por Getúlio Vargas, o sambista percebe a grande falácia dessa ideologia, visto que o operário esforça-se na cadeia produtiva do trabalho, recebendo para isso uma precária remuneração e permanecendo, portanto, pobre e reprodutor de sua mísera condição social. Nesse sentido, a autora expressa: ‘’A fábula da melhoria de vida através do esforço laborioso está constantemente presente nas letras de nossos sambas dos anos 30 e 40, quer para ser reafirmada, quer para ser negada ou ironizada’’ (1982, p.80).

Logo, se opor a esse sistema que ampliava a riqueza dos patrões e, na mesma medida, a pobreza do trabalhador, era motivo de exaltação, de orgulho e, além do mais, sinônimo de ser malandro e não otário. Em decorrência dessa antítese, frequentemente, o trabalhador é descrito, nos sambas, de maneira pejorativa, pois se conforma com as injustiças desse sistema. O sambista era um exemplo do malandro, seguindo a definição dada por Moreira Silva, ganhava dinheiro de modo fácil, o qual buscava, também, ostentar os gozos que sua condição lhe proporcionava. É importante ressaltar que tais críticas figuraram até a implementação do Estado Novo. 

Além disso, o texto demonstra que Vargas sempre foi um incentivador do samba, o qual criou importantes mecanismos que favoreceram os produtores de samba; destaque para o seu incentivo radiofônico, permitindo a divulgação de músicas nesse espaço e a promulgação de leis que ampliaram a renda e a participação destes no cenário brasileiro, tornando-os objeto de consumo nacional, até mesmo das elites. Explicitamente uma tentativa de forjar uma Identidade Nacional através do samba. O favelado do morro sempre é – quiçá sempre será – objeto de preconceito por parte dos ricos, contudo, sempre tem suas criações apropriadas por esses. Semelhante situação do samba observou-se com o funk das décadas de 1980 e 1990, que com o passar do tempo foi projetado a símbolo nacional, sendo progressivamente e hipocritamente exaltado pelos mesmos que antes criticavam tal expressão cultural.

O capítulo seguinte, O Malandro Regenerado, discute as mudanças da figuração do malandro e, por conseguinte, da representação do trabalho no samba no período Estado novista, que em decorrência das constantes censuras e dos incentivos financeiros já não poderiam ser tratados da mesma forma. Em suma, discursos melancólicos, irônicos e ambíguos são destaques das poesias analisadas por Claudia de Matos. 

Vargas utilizou com muita maestria o Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP) para, além de promover a sua imagem, censurar conteúdos que pudessem denegrir a imagem da ideologia propagada por seu governo. Certamente, um governo autoritário não permitiria que o seu lema de estímulo ao trabalho continuasse sendo retratado de maneira pejorativa pelo samba, exigindo, assim, a mudança das letras – que poderia ocorrer por meio da repressão ou por meio do estímulo financeiro. O texto cita que algumas canções podem ter sofrido alterações do DIP, como por exemplo, ‘’O Bonde São Januário’’. No entanto, a ênfase é dada aos sambistas que passaram a receber fundos financeiros do governo para colaborar com a propaganda do Estado Novo com a produção de sambas que estimulavam a vida de um trabalhador e combatiam a malandragem. A partir de então, valia a pena trabalhar e ser malandro era uma condição passada, lema que, pelo menos nas intenções do governo, deveria representar toda a sociedade brasileira.

Entretanto, mesmo os sambistas que passaram a produzir músicas de abandono da malandragem, endossaram, em suas letras, o sarcasmo, a ironia, a ambiguidade como forma de criticar e/ou exaltar valores que pertenciam a esse grupo. Como diria o dito popular: ‘’Se a vida lhe der um limão, faça uma limonada.’’. Dessa maneira, é demonstrado que as propagandas Varguistas não foram acolhidas com total passividade e sem questionamentos, e que o grupo, apesar do contexto adverso, permanecia com seus valores vivos e operantes; por exemplo por meio da crítica a não possibilidade de enriquecimento do trabalho e a permanência de suas condições injustas, que, muitas vezes, de maneira sutil – ou nem tanto, mas o suficiente para ser aprovada pelo DIP – exaltava o retorno a malandragem como uma possibilidade positiva.

A criatividade artística brasileira é inegável, sobretudo, na forma de demonstrar insatisfação; frequentemente, o povo é criticado e retratado, inclusive pelos próprios brasileiros, de forma ultrajante como se fosse eternamente passivo. Contudo, essas situações adversas e outras, por exemplo, as brilhantíssimas canções de oposição ao período da Ditadura Militar, demonstram o contrário do que dizem aqueles que criticam e retratam perjorativamente o brasileiro, evidenciando, assim, além de talento no modo de revelar seu desgosto, um grande senso crítico da população brasileira.

Outrossim, ‘’O malandro regenerado’’ trata de um antigo herói, o malandro dos anos 20 e 30, que sente-se vulnerável e injustiçado pelas novas condições impostas pelo sistema vigente, o qual não o acolhe e nem admite a sua transformação em bom cidadão, ainda que esse se esforce para demonstrar as suas novas intenções. Claudia de Matos define o capítulo como: ‘’A situação do samba malandro no início dos anos 40 é mais ou menos como a situação do sujeito que vai preso e se declara ‘regenerado’ diante do delegado’’ (1982, p.110). Essa situação demonstra, claramente, um triste lado do Brasil: o preconceito sócio-racial que, infelizmente, ainda hoje, se mantém vivo e demonstra que perdurará por longos anos.

Torna-se claro, portanto, que “Acertei no milhar: samba e malandragem no tempo de Getúlio’’ apresenta um conteúdo e uma problemática riquíssimos, prendendo na mais êxtase experiência o seu leitor; como já expresso, é um livro feito por alguém da área da gramática, Claudia de Matos, que tornou-se uma cartilha para o estudo da chamada Era Vargas. Isto reforça o que Fernand Braudel aponta em História e Ciências sociais (1986) sobre a importância da interdisciplinaridade para o ofício do historiador, no qual a comunicação com outros campos do saber amplia a contribuição para a compreensão de um determinado assunto no tempo. Em conformidade com isso, os capítulos analisados permitem perceber que as críticas e os elogios a determinados valores feitos por essas canções demonstram a laboriosa intervenção do Estado na tentativa de formular uma Identidade Nacional capaz de unir todo o povo brasieiro.

Leandro Silva Machado Dos Santos é estudante do curso de História pela Universidade Federal Fluminense
(UFF), na modalidade de Licenciatura.

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